Sobre revolução e democracia na
educação...
Fui
convidada a participar de uma aula inaugural de um curso de pós graduação que
atualmente funciona em Campina Grande- PB. O convidado: Dr. Augusto Cury e o
horário marcado 8:30h. Até as 10h da manhã o palestrante ainda não havia
falado, porque a universidade mostrava todo o seu projeto e sua abrangência
especialmente no Nordeste brasileiro. Professores de universidades públicas da
cidade encabeçando junto aos empresários o projeto de Educação, que nas
palavras do reitor se tratava de uma revolução democrática! Garantir Educação
aos sujeitos nos lugares mais longícuos, aonde o Estado não conseguiu chegar.
Um
discurso que tentava sensibilizar a platéia ao afirmar que alunos cortadores de
cana faziam parte do projeto universitário. Realmente uma revolução, algo inédito o fato do cortador tirar do seu mísero
ganho mensal a cota para pagar o
curso.
Um
dos coordenadores contava umas histórias bonitas que cada aluno da instituição
estava sendo observado e podia, inclusive se agregar à instituição prestando
serviços e ganhando muito bem. Citou bons salários de estudantes da instituição
garantindo que o fato dele estar matriculado nela fazia toda diferença.
Me
preocupa esse fato por perceber que grandes empresários estão encabeçando
projetos educacionais estritamente com fins lucrativos e estão contando com
apoio governamental e aparato docente funcional público que são pagos para
assumirem DE – dedicação exclusiva às
suas instituições. Me preocupa ainda o fato dessas instituições se dizerem centros
de pesquisa, quando o aluno após meses de estudo não tem ideia de quem os
orientará. São alunos em busca de realizar o sonho da pós graduação,
sacrificando-se ao financiar sua qualificação para um mercado que, diferente do
discurso dos empresários, não está em tamanha ascensão como propalam os
otimistas ingênuos que compoem o campo político.
Seremos,
em bem pouco tempo, um país de doutores e mestres analfabetos funcionais que
lançam suas apostas em instituições que o objetivo fim é o lucro. Até que ponto
eles têm compromisso com a pesquisa? Que função social cumprem? É uma forma
muito vil de tentar fazer crer nas promessas de uma educação de
qualidade, competente, com métodos eficientes e com bom desempenho. Para
Ball(1998), esse discurso ganha terreno em virtude da existência de um Estado
incompetente para garantir uma educação pública de qualidade.
Na
ocasião, ao mesmo tempo em que o empresário insistia na construção de um centro
de pesquisa, o seu discurso vinculava o conhecimento apenas ao emprego e
produtividade.
Para coroar
tudo isso, Augusto Cury com a palestra “Inteligência multifocal”. Achei que ele
fosse esclarecer como elaborou essa “teoria”, quais são os pressupostos que lhe
dão suporte, mas assisti apenas a um discurso adocicado de que podemos ser o que quisermos, seguidos
de um jogral milagroso em que a platéia, no final, ainda foi ao delírio. Sobre
isso teríamos muito a discutir ainda, mas deixo a reflexão sobre os rumos da
pesquisa e da “Educação de Qualidade” que é liderada pelo empresariado da
educação.
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